terça-feira, 18 de setembro de 2007

ENTÃO ISSO DIZ-SE, SENHOR GREENSPAN?

HÁ QUASE CINCO ANOS, em 18 de Janeiro de 2003, dois meses antes da invasão do Iraque, publiquei uma crónica no «Expresso» (do qual ainda era colaborador semanal) intitulada «É o petróleo, estúpido!». Basicamente, chamava a atenção para o relatório do Grupo de Desenvolvimento da Política Energética Nacional dos E. U. A., redigido pelo vice-presidente Richard Cheney e publicado em 17 de Maio de 2001, que propunha a adopção de políticas agressivas capazes de dar resposta à crescente dependência norte-americana do petróleo estrangeiro (a qual atingira 45% do seu consumo total em 1997, trepara para 52% em 2001 e ameaçava chegar aos 66% em 2020). A «recomendação» do vice-presidente Cheney ao presidente Bush era clara: eleger o desenvolvimento das importações de petróleo como «prioridade da sua política comercial e da sua política externa». À beira da guerra, a paráfrase fazia todo o sentido: «É o petróleo, estúpido!».

«Basta olhar para a carta do petróleo e para um mapa geoestratégico do mundo para se perceber porque é que Bush filho prefere atacar o Iraque, de Saddam Hussein, e não a Coreia do Norte, de Kim Jong-Il» - escrevia eu nessa mesma crónica. E a suprema ironia residia no facto de, exactamente ao contrário do Iraque, a Coreia do Norte possuir armas de destruição maciça, mas não possuir um único poço de petróleo. Era, portanto, bastante fácil de perceber porque é que Bush filho e os «falcões» neo-conservadores que o rodeavam queriam à viva força – ou seja, à lei da bomba! – invadir e ocupar o Iraque.
Claro que esta crónica não foi nada bem recebida, nessa altura, pelos «ideólogos bombistas» lusitanos, entusiastas da invasão. Alguns deles já ocupavam quase todos os lugares de direcção dos principais jornais portugueses, outros já preenchiam quase todas as colunas de opinião e, todos eles, apareciam a toda a hora a perorar na televisão. Hoje, já ninguém se recorda, porque a memória colectiva costuma ser curta, mas o predomínio de ex-esquerdistas - antigos marxistas-lenistas, estalinistas e maoístas de trazer por casa, arrependidos e convertidos à ideologia neo-conservadora – era, nessa altura, tão ridículo como impressionante. Entre directores de jornais, professores da Universidade Católica, diplomatas de aviário, especialistas da guerra e «falcões» da política, um ex-esquerdista conseguira mesmo chegar a primeiro-ministro: o inefável José Manuel Durão Barroso.

Alguns deles publicaram, então, livros que, lidos hoje, só podem ser motivo de gargalhada. Mas até um embaixador na moda (esquerdista in illo tempore) se prestou a avalizar tais livros publicamente. Tenho-os em casa e sei do que falo. Só não os cito por mero pudor. Mas não me esqueço do artigo que um ilustre economista, ex-ministro das Finanças do professor Cavaco Silva, publicou nessa altura, em resposta à minha crónica (embora sem me citar). «Não é o petróleo, estúpido!» - escreveu ele, puxando dos seus galões de economista ortodoxo, que acumula todo o saber do mundo e tem por costume prestar vassalagem aos «mandarins» do neo-liberalismo, do FMI e do Banco Mundial.

Imagino o melão com que terá ficado essa beleza de economista ao ler, agora, as afirmações que faz um dos seus ídolos, o senhor Alan Greenspan, acerca da invasão do Iraque. No livro de memórias que acaba de publicar, «The age of turbulence: adventures in a New World», o economista nomeado pelo presidente Reagan que presidiu durante mais de 18 anos à Reserva Federal dos E. U. A., acusa George W. Bush de ter ordenado a invasão do Iraque, em Março de 2003, para controlar o petróleo produzido nesse país. O senhor Alan Greenspan sabe bem do que fala e é bastante claro: «Entristece-me que seja inconveniente reconhecer publicamente o que todo o mundo sabe: que a guerra no Iraque foi basicamente por causa do petróleo». Então isso diz-se, senhor Greenspan?!

Afinal, sempre foi o petróleo, estúpido! O que é uma decepção, não só para o tal economista, mas também para muitos «ideólogos bombistas» que, ainda hoje, passados quase cinco anos de puro terror sobre a invasão do Iraque, são incapazes de reconhecer os erros de avaliação que cometeram e as tristes figuras que fizeram. O que nem é assim tão surpreendente, se pensarmos que, ao invés dos neo-conservadores norte-americanos, os «ideólogos bombistas» lusitanos continuam, todos eles, no poleiro a cantar de galo.
17 de Setembro de 2007
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É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!
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«Expresso» de 18 de Janeiro de 2003
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TANTO OU MAIS IMPORTANTE do que conhecer o já célebre documento que estabelece a nova «Estratégia Nacional de Segurança dos Estados Unidos» - publicado em 20 de Setembro de 2002 pela Administração do presidente George W. Bush - é analisar o não tão famoso relatório do «Grupo de Desenvolvimento da Política Energética Nacional» dos E.U.A. - redigido pelo vice-presidente Richard Cheney e publicado em 17 de Maio de 2001. Pouco propensos a economizar energia e bastante cépticos em relação ao desenvolvimento das chamadas energias renováveis, os E.U.A. deixaram há muito tempo de ser exportadores de petróleo e estão cada vez mais dependentes do petróleo importado, designadamente do Médio Oriente. A dependência norte-americana do petróleo estrangeiro rondava os 45 por cento do seu consumo total em 1997, trepou para 52 por cento em 2001 e prevê-se que vá atingir os 66 por cento em 2020. Daí a urgência de definir uma nova estratégia capaz de dar resposta ao aumento das necessidades de petróleo nos próximos 25 anos. É o que se faz no citado relatório, que «recomenda» à Administração do presidente George W. Bush que eleja o desenvolvimento das importações petrolíferas como «prioridade da sua política comercial e da sua política externa». Por isso se justifica tanto a paráfrase: é o petróleo, estúpido!

Talvez se perceba melhor esta sede insaciável de petróleo, se tivermos em conta que os cidadãos norte-americanos gostam imenso de grandes automóveis e de veículos 4x4 (ou seja, todo-o-terreno) mas consideram absolutamente anormal - mesmo inadmissível - pagar muito mais do que um dólar (mais ou menos um euro) por cada galão de carburante (isto é, por 3,785 litros de gasolina). E nenhum político americano que queira ser eleito se atreverá a contrariá-los. Armas para todos e gasolina barata são emblemas do «american way of life». Se a isto juntarmos os poderosíssimos interesses das indústrias directa ou indirectamente ligadas à produção de todo o tipo de armamentos e os não menos poderosos interesses do «lobby» do petróleo, será bastante mais fácil compreender porque é que «Bush Filho, Dick Cheney & Friends» querem à viva força «libertar» o Iraque e manter tropas no Afeganistão, no Paquistão, nos Balcãs e em outros locais estratégicos dessa vastíssima região do mundo a que eles chamam Eurásia. Mais facilmente se perceberá, também, porque é que Osama Bin Laden e a Al Qaeda fazem, objectivamente, o jogo de Bush Filho e fornecem todos os argumentos de que Donald Rumsfeld e o Pentágono necessitam para operar a «revolução do pensamento militar» que está em curso nos E.U.A., para gáudio do «lobby» texano que os colocou no poder e dos «falcões» e «ideólogos bombistas» que os incitam à guerra.

Basta olhar para a carta do petróleo e para um mapa geoestratégico do mundo para se perceber porque é que Bush Filho prefere atacar o Iraque, de Saddam Hussein, e não a Coreia do Norte, de Kim Jong-Il. Aparentemente, seria mais «justificável» atacar a ditadura sanguinária do «Grande Sol do Século XXI», ou «Sublime Estrela Polar», porque tem armas de destruição maciça e seria bem mais fácil impôr uma democracia, ainda que «musculada», à semelhança do que acontece na Coreia do Sul. O problema é que não cheira a petróleo na Coreia do Norte e a China está mesmo ao pé. No Iraque, pelo contrário, há «ouro negro» a rodos (tem as segundas maiores reservas mundiais), o «Ladrão de Bagdade» está cada vez mais fraco e vulnerável e já não possui armas de destruição maciça. Além disso, o Irão e a Arábia Saudita (com as maiores reservas mundiais do precioso líquido) estão ali bem perto, dentro desse gigantesco «penico» do petróleo onde também cabem o Kuweit, o Bahrein, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos. E há, ainda, Israel, sendo certo que Bush Filho deseja obter a todo o custo o apoio e o voto maciço do «lobby» judaico, para ser reeleito em 2004. A hiperpotência vadia depende cada vez mais dos recursos do resto do mundo. Os Estados párias são um bom pretexto para o Império projectar as suas forças. O pior virá depois.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

OS POBRES QUE PAGUEM A CRISE!

O ESTADO de completa devastação ideológica em que se encontra o PS pode ser avaliado pelos resultados obtidos ao cabo de dois anos de governação. Empenhado em meter o país nos eixos, o Executivo chefiado pelo sempre severo e temível engenheiro Sócrates cometeu uma proeza (in)digna de qualquer partido socialista que se preze: uma redução rápida e brutal do défice do orçamento do Estado e uma subida vertiginosa das desigualdades sociais; um aumento algo pindérico da taxa de crescimento do PIB e uma diminuição bastante significativa do poder de compra dos trabalhadores. Mais: enquanto o desemprego se situa a um nível muito alto e a precariedade se generaliza, as grandes fortunas prosperam, tendo crescido 35,8 por cento em relação a 2006. Um escândalo. Se estes são resultados dignos de um governo socialista, vou ali e já venho.
BEM PODEM tentar desqualificar-me, chamando-me «esquerdista», «demagogo» e «populista». Os números são bastante claros, não fui eu que os inventei. «Esquerdista» é o Instituto Nacional de Estatística, «demagogo» é o Instituto do Emprego e Formação Profissional, «populista» é o Eurostat. O certo é que as diferenças de rendimentos entre ricos e pobres, em Portugal, atingiram uma dimensão inédita, batendo um novo record: ao contrário da tendência que se regista na União Europeia, o fosso salarial entre ricos e pobres alarga-se e situa-se, agora, duas vezes e meia acima da média comunitária. Além disso, Portugal é o país europeu que menos investe em segurança social. O desemprego de longa e muito longa duração cresceu assustadoramente e já representa quase metade do total de 470 mil desempregados. Há 250 mil desempregados com menos de 35 anos e 124 mil com mais de 44 anos. O PS bem pode limpar as mãos à parede.
PARECE ABSURDO que o combate à crise económica e financeira, levado a cabo por um governo pretensamente socialista, em nome dos superiores interesses do país, resulte em maiores desigualdades sociais, mais precariedade, mais desemprego e mais pobreza, ao mesmo tempo que as grandes fortunas aumentam vertiginosamente. Mas, como dizia Napoleão, «em política, o absurdo não é um obstáculo». Não se contesta o papel crucial da propriedade privada e do capital no desenvolvimento de uma sociedade aberta, livre e democrática. Mas é legítimo perguntar que contribuição têm dado os mais ricos para combater esta crise tão grave. Queixam-se de que o Estado os estrangula, mas a verdade é que as suas fortunas crescem a olhos vistos, ao mesmo tempo que as classes médias empobrecem e os trabalhadores sofrem os efeitos da técnica da banda gástrica que este Governo decidiu aplicar-lhes para lhes reduzir o apetite. O que é indecente.
É VERDADE que a devastação ideológica que se verifica no PS remonta ao tempo do inefável engenheiro Guterres. Mas o «pico do incêndio» só foi atingido agora, sob a égide do intratável engenheiro Sócrates. A perda de quaisquer estímulos ideológicos na luta política gerou um vazio ao nível das ideias, das convicções e dos princípios, dando lugar a uma nova classe de políticos mais sensíveis a motivações materiais, a interesses pessoais e de poder. Foi a vitória do sentido de oportunidade (para não lhe chamar outra coisa mais feia) e do pragmatismo sem princípios.
AS CHAMADAS «práticas clientelares» (mais evidentes ao nível autárquico) e de «governo paralelo» (das grandes empresas e interesses financeiros) impõem-se, hoje, aos partidos do «bloco central». Por isso, não espanta que a passagem do poder do PSD para o PS (e vice-versa) não seja mais do que «saltar do lume para a frigideira». Dizem as boas línguas que o Governo do engenheiro Sócrates tem feito «reformas muito corajosas». Eu, que sempre fui má-língua, limito-me a perguntar: é preciso coragem para exigir aos pobres que paguem a crise?!
«Sol», 1 de Setembro de 2007

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A Direita dos interesses rejubila e o país amocha

No seguimento da crónica «E Viva o ‘precariado’!», publicada no «SORUMBÁTICO» [v. aqui] e neste mesmo blogue (v. post anterior), o «Jornal de Notícias» resolveu entrevistar-me para a rubrica «Farpas» de 14 de Agosto de 2007.
Seguem-se as perguntas feitas e respectivas respostas, estando em letra preta as que o jornal omitiu.
Há, além disso, algumas - pequenas - diferenças entre o texto que aqui se afixa e o que veio a ser publicado, podendo este ser lido [aqui].

Um sportinguista interpreta o jogo da Supertaça FC Porto-Sporting como uma reposição da verdade desportiva?
Nos tempos que correm, a verdade desportiva anda muito por baixo, como se sabe. O Sporting terá sido prejudicado no campeonato e o FC Porto na Supertaça. Se pudesse escolher, teria preferido que o Sporting fosse campeão. Como não posso, consola-me que a Taça de Portugal e a Supertaça morem em Alvalade.

Prefere ver o seu Sporting no estádio, na mesa do café ou ouvir o relato na rádio?
Há muito que prefiro ver a bola sentado num sofá lá de casa. É mais fácil dormir quando o jogo se torna chato e sensaborão, com poucos ou nenhuns golos. O futebol está cada vez mais industrializado e tecnocrático e cada vez e menos interessante.


Paulo Bento é o «special one» do Sporting?
Não é, e ainda bem. O «special one» é um sobreexcitado e o Paulo Bento prefere treinar «com toda a tranquilidade». O Ricardo Araújo Pereira, que é «lampião», topou-o bem.

Simpatizava com Jesualdo Ferreira. Mudou de opinião desde que ele está a treinar o FCP?
Simpatizava, sim. Até escrevi algumas crónicas a elogiá-lo, no «DN». Mas parece-me que a arrogância lhe subiu à cabeça, quando passou a treinar o FCP. Não me agrada a forma como se refere a alguns adversários domésticos. Devia deixar esse «dirty job» para o especialista da casa, que é o presidente vitalício do clube.

Nasceu em Roma. O que há em si de italiano?
Sem dúvida o facto de ser filho de uma italiana. E o apelido Somera, que, por acaso, até é de origem espanhola. Talvez também a paixão pela ópera, apesar da minha melomania ter sido mais influenciada por alguns portugueses.


Tem saudades da tertúlia «Os vencidos da vida», que partilhava com António Barreto e António-Pedro de Vasconcelos? Qual a razão do nome?
Saudades não tenho. Mas as melhores referências até eram o Vasco Pulido Valente e o médico João Paulo Amorim, que já morreu. E não éramos nós que nos designávamos assim. Seria pretensioso fazê-lo. Eça, Ramalho e Antero são únicos e irrepetíveis.

É melómano. Ainda faz campeonatos com os amigos para ver quem tem mais CD?
Nunca fiz campeonatos desses com os amigos. Gostava era de ir comprar discos com alguns deles. E é verdade que, no princípio, comprávamos cd’s às cabazadas, seguindo o guia da Penguin elaborado por especialistas da revista Gramophone.


Quando terminou (se é que terminou) a sua fase rock, altura em que frequentava a discoteca lisboeta Ad Lib?
Poucas vezes fui ao Ad Lib. A boîte (assim se dizia in illo tempore) que mais frequentei foi a Stones. Para já não falar do Caruncho, onde ia abanar o capacete e beber um copo nos tempos do liceu e da faculdade. Ainda conservo uma pequena discoteca de música pop, completamente esmagada, é verdade, pela discoteca de música erudita.


Nunca o confundem com Alfredo Barroso, o histórico autarca do Redondo, banido pelo PCP?
Aconteceu uma vez, quando ele ainda era do PCP, a propósito de um abaixo-assinado sobre o Alqueva publicado nos jornais. Ele assinou e eu fui notícia.

Que televisão - pública e privada - temos hoje, uma década depois de ter publicado «A televisão que temos» (Contexto, 1995)?
A televisão generalista que descrevi nessas crónicas, a TQT, não mudou quase nada, nós é que nos habituámos a quase tudo. Como dizia o poeta, «estamos nus e gramamos».

Numa altura em que a ficção nacional parece querer ganhar espaço televisivo, defende que deve haver mais pudor na adaptação das obras de escritores como Camilo («Paixões Proibidas») ou Eça («O Crime do Padre Amaro»), ou esse pode ser um dos caminhos para despertar, nas pessoas que habitualmente não lêem, curiosidade sobre autores portugueses?
Duvido muito que desperte. É como a história dos «Três Tenores». Também diziam que era para despertar interesse pela ópera, mas apenas serviu para um Pavarotti decadente ganhar pipas de massa. De resto, não sou, nem quero ser, censor do gosto e só posso lamentar que algumas adaptações sejam abaixo de cão.

São vagamente conhecidas as suas zangas com Mário Soares, na altura em que era chefe da Casa Civil do Presidente da República. Qual dos dois era o osso mais difícil de roer?
Ao longo de mais de trinta anos de estreita colaboração política, alguns atritos pessoais eram inevitáveis. Foram zangas, como diz, e não braços-de-ferro de roer os ossos.

Foi, apesar de tudo, uma das pessoas a tentar demovê-lo de se candidatar às últimas presidenciais?
Não tentei demovê-lo, nem tentei empurrá-lo. Achava que ele não devia candidatar-se, mas nunca lho disse, por considerar que eu não tinha esse direito e que lhe cabia a ele tomar uma decisão. É um assunto arrumado, do qual só guardo más recordações.

Que leitura fez do país no dia da derrota?
A leitura óbvia: a de um país cujo eleitorado confirmava uma clara viragem à direita. Grande equívoco tinha sido considerar a vitória do engenheiro Sócrates nas eleições legislativas como uma vitória da esquerda. Era bom que fosse, mas não foi.

Continua a ser contra a regionalização?
Claro que sim. Mantêm-se de pé todas as razões de fundo que a desaconselham. Desde logo, a total incapacidade do poder político para descentralizar e desconcentrar. É por isso que prefere regionalizar, ou seja, retalhar para centralizar em miniatura.


Essa «esquerda moderna, que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos» (http://sorumbatico.blogspot.com) está a conduzir o país para onde?
Está a conduzir um país resignado e sem alternativas credíveis para patamares de maior desigualdade e precariedade. A direita dos interesses rejubila, obviamente. E o país anónimo refila, mas amocha.

Irrita-o exactamente o quê em José Sócrates?
Já não tenho idade para me irritar. Apenas lamento que o PS seja hoje um instrumento de defesa dos grandes interesses financeiros e de empobrecimento da classe média e dos trabalhadores em geral. Quando vemos um avocat d’affaires como José Miguel Júdice a teorizar sobre a «esquerda moderna», está tudo dito sobre o estado actual do PS.

Quer explicar-me o que diz ser «a técnica da banda gástrica», que o Governo está a aplicar ao País?
Dantes, em períodos de crise económica, os trabalhadores tinham de apertar o cinto mas mantinham a esperança de vir a desapertá-lo. Hoje, o objectivo é apertar o estômago dos trabalhadores para que eles se desabituem de querer comer mais no futuro. Só ao capital financeiro é permitido comer à tripa forra e engordar sem limites.

Ao fim de 20 anos de colaboração no DN, e de nove no Expresso, foi «varrido». Foi um divórcio de comum acordo?
Regra geral, os cronistas convidados não se casam com os jornais. Ficam dependentes das «opções editorais» das suas direcções. Não as contesto, mas devo interpretá-las. E concluo que sou politicamente incorrecto e incómodo para os poderes do dia. Além de ter manifesta vocação para a dissidência. O facto de ter tido escandalosamente razão no que escrevi contra a guerra do Iraque e contra os Governos do engenheiro Guterres, foi um precedente que me tramou numa imprensa dirigida por «cristãos novos».

Acabou a liberdade de imprensa em Portugal?
Claro que não. Mas é evidente que quase todos os órgãos de comunicação social estão ideologicamente alinhados e controlados pela direita. Há alguns esquerdistas de serviço, que funcionam como uma espécie de «idiotas úteis» e «avalistas» nos jornais de direita. Mas os desalinhados e os dissidentes são banidos e marginalizados.

terça-feira, 31 de julho de 2007

E VIVA O «PRECARIADO»!

Por Alfredo Barroso

EM ABONO DA VERDADE se diga que era a direita que queria pôr este país nos eixos. Mas a incompetência e o descrédito dos seus governos (Durão Barroso e Santana Lopes, ambos com Paulo Portas) fez com que eles caíssem, isto é, fugissem ou fossem corridos por indecente e má figura, para utilizar uma das expressões do povo fora dos eixos.

Criou-se, assim, um nicho (político) de mercado, propício a quem quisesse pôr o país na ordem - ou a pôr ordem no país, se optarmos por uma versão mais suave. Ordem nas contas públicas, no deve e haver do Estado, nos lucros das grandes empresas e nas perdas dos pequenos cidadãos, nos salários de quem ainda tem emprego, nos subsídios de quem já não o tem e nas reformas dos que estão a ficar com os pés para a cova.

O despropósito e despautério da direita lusíada fizeram com que esse formidável nicho de mercado viesse a ser ocupado, rapidamente e em força, pela chamada esquerda moderna (seja lá isso o que for), que se diz muito amiga dos pobres, mas prefere deitar-se com os ricos (certamente porque não cheiram mal da boca). E é nisso que estamos.

Sejamos sérios: para conservar a nação em bom estado, é preciso pôr o país nos eixos e meter o povo na ordem. O pedigree de esquerda (como diz o outro) é um óptimo disfarce e ajuda muito a convencer um país que é (pau) para toda a obra e por isso gosta de ser (pau) mandado. Um país que refila, mas amocha. Está habituado a resignar-se.

Ora, num país resignado e sem alternativas (o engenheiro Sócrates tirou o tapete programático ao doutor Marques Mendes e este foi espojar-se no Chão da Lagoa), conta bastante o ar severo de quem discursa, a catadura sombria de quem manda, a capacidade de indignação espectacular de quem está no poder. Indignação – imagine-se! – perante o atrevimento dos que não se resignam a ser tramados pelo poder e a ficar mais pobres e desamparados em consequência das reformas corajosas (?) que esse poder lhes impõe. (Já repararam que o nosso primeiro-ministro está sempre zangado quando discursa?).

Mas vejamos. Os partidos políticos que constituem o chamado bloco central (PS e PPD/PSD) ou o arco da governabilidade (expressão inventada pela direita para incluir também o CDS/PP, e, sobretudo, para excluir os que estão à esquerda do PS, ou seja, o PCP e o BE), estabeleceram dois critérios essenciais (ditados pela ortodoxia neo-liberal em voga) para avaliar o estado da nação, a saber: a redução (rápida e brutal) do défice orçamental; o aumento (mesmo que muito pindérico) da taxa de crescimento do PIB.

Pois bem. À luz destes dois critérios, ninguém duvidará de que a performance do governo da esquerda moderna chefiado pelo engenheiro Sócrates é bastante superior às performances dos patéticos governos da direita chefiados pelos doutores Durão Barroso e Santana Lopes (o que fugiu e o que anda por aí). Para já não falar da performance dos outros governos da esquerda moderna chefiados pelo engenheiro António Guterres (que se refugiou entre os refugiados das Nações Unidas). Agora é que a direita rejubila! Quer dizer: a direita dos interesses, das empresas, da alta finança, em suma: da massaroca!

Claro que, se avaliarmos os resultados deste governo da esquerda moderna à luz de outros critérios totalmente legítimos (embora não caros ao neo-liberalismo em voga) – por exemplo: o poder de compra dos cidadãos, que continua a diminuir; e a coesão da sociedade, que continua a degradar-se à medida em que cresce o desemprego, aumenta a precariedade e se alarga o fosso entre ricos e pobres –, é evidentemente desconsolador o balanço dos que estão acocorados no nicho político deixado vago pela direita lusíada.

Digamos que aquilo que este governo da esquerda moderna tem estado a fazer, com mais eficácia do que os governos anteriores e mais aplauso da direita da massaroca, é aplicar, à classe média em geral e aos trabalhadores em especial, a técnica da banda gástrica (novo método político cujos direitos de autor vou registar): já não se trata só de apertar o cinto, mas também de reduzir artificialmente a vontade de comer. No fundo, o propósito é o de reformatar a modernidade económica, banindo do vocabulário corrente as perigosíssimas noções de desenvolvimento humano, equidade e bem-estar social.

Estamos, assim, a assistir à emergência de uma nova classe social, a que alguns sociólogos já chamam «precariado». Uma espécie de neologismo que resulta da síntese dos termos proletariado (ao qual fora arrancada grande parte da classe média, no século XX) e precariedade (do emprego, do salário, da vida quotidiana e, portanto, do futuro). Viva, então, o precariado! Uma nova classe social tanto mais vulnerável quanto menos solidários e mais solitários forem os seus putativos membros – política e sindicalmente incapazes de se organizarem, envergonhados pela sua despromoção social, com receio de serem tratados como comunistas pela esquerda moderna e, por isso, já resignados.

Eu, que nunca fui comunista nem alguma vez pertenci à esquerda moderna (sou, mais prosaicamente, social-democrata genuíno, nada fictício), não tenciono resignar-me. Mas tenho perfeita consciência de que pouco ou nada posso fazer, para além das linhas desta prosa sorumbática - que não agrada ao poder do dia, seja ele político ou outro. Fui varrido há meses dos lugares de estilo onde se escreve prosa política convencional, isto é, atenta, veneradora e obrigada, ou, então, vagamente irreverente e inconformista q. b.. Pus agora a cabecinha de fora. Espero bem que não seja cortada. E viva o precariado!

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A ESTÉTICA DO ALUMÍNIO

SEMPRE FUI UM O’NEILLISTA, confesso. Pelo menos desde quando me atrevi a dizer em público Um adeus português, era ainda um rapazelho, muito verdes anos, a apanhar bonés na vida. E não há-de ser agora, que já palmilho há um bom par de anos a casa dos sessenta, que vou deixar de o ser. Burro velho não aprende línguas, nem vira casacas.

Esta advertência é indispensável para se perceber melhor a grande incomodidade e a imensa desdita de quem vive em «ALUMINIÓPOLIS». Já lá vão mais de vinte anos, o poeta avisou em prosa: «O alumínio está a expandir-se assustadoramente». Mais: «Por estes andares, Lisboa vai ter, não tarda muito, poentes e nascentes de alumínio». Já tem. Todo o país se passou, paulatinamente, para o alumínio. Em sentido real e figurado.

A estética do alumínio, com a sua caixilharia refulgente, saltou do urbanismo e da arquitectura de marquise para a política, a literatura, a música, os jornais, a rádio e a televisão de cordel. O «mau gosto gritante que o alumínio inculca» não é privilégio de mestres-de-obras e edis pragmáticos. É democraticamente partilhado por demagogos de feira, políticos de plástico, escrevinhadores a peso, publicistas a metro, apresentadores à hora, repórteres ao minuto, pantomineiros sem eira nem beira, aves canoras em saldo.

A estética do alumínio aposta a fundo na expressão de realce despropositada. É o frigorífico na sala de jantar com naperon em cima. É a inútil multiplicação de rotundas, cada qual com o seu mamarracho ao centro. É a bossa de camelo incrustada num corpo escorreito, que fica marreco. É o discurso da banha da cobra, que despreza a subtileza. É o riso alarve, que despreza a ironia. É o sonho dos néscios e o pesadelo dos incautos.

«Verdadeiros berros» e «autênticas fífias de alumínio» brotam insidiosamente de inúmeras fachadas, aproveitando todas as «janelas de oportunidade» para se expandirem e encaixilharem as suas marquises no nosso quotidiano de cidadãos desprevenidos. Já se sabe que uma larga maioria gosta e uma curta minoria não. Por isso, a pergunta do poeta lá se vai repetindo com ironia e desalento: «Então não é verdade que estamos kitsch?».

A democracia tem perversidades destas. É como «uma mulher em forma de S, de roupão florido e canteiro de papelotes à cabeça». Se estivesse vestida de papel de jornal «não faria mais restolho». É assim «porque é mais prático e, o que é pior, para tantos e tantos MAIS BONITO», como lamentava O’Neill. Mas também porque assim fica mais barato e é mais lucrativo. Indiferente ao gosto, o que o bezerro de oiro quer é facturar.

O o’neillismo é um pessimismo, como já perceberam. Mas não se confunde com resignação cristã. Mantém a lucidez e a ironia. Chateia-se solenemente. Protesta em voz alta. Indigna-se e não se conforma com a expansão do alumínio, reclamando o recurso a materiais mais nobres. Sem se iludir, todavia, quanto ao futuro da construção civil, dos mestres-de-obras e dos capatazes neste cada vez mais metafórico país encaixilhado em alumínio. Nem, aliás, quanto ao futuro da Pátria, da República, da Europa e do Mundo.

NOTA: Esta crónica foi escrita para o derradeiro número da Revista «6ª» do «DN», cuja publicação deveria cessar no dia 13 de Abril de 2007, mas, afinal, cessou no passado dia 6 de Abril.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

UMA HISTÓRIA DE SERVIDÃO

UMA NAÇÃO SUJEITA DURANTE SÉCULOS ao terror físico e psicológico exercido pelos czares, os boiardos, a igreja ou o partido único dificilmente se libertará das tutelas que a oprimiram e dos hábitos que a servidão e a submissão nela inculcaram. Parece ser esta a única conclusão a retirar de quinhentos anos de história da velha Rússia, desde o sinistro reinado de Ivan o Terrível, entre 1533 e 1584, passando pela abdicação do czar Nicolau II, em Março de 1917, pela vitória da revolução bolchevique, em Outubro de 1917, pela «entronização» de José Estaline, em 1924, até à morte do czar vermelho, em 1953.

É pelo menos esta a tese que defende o ex-diplomata russo Vladimir Fédorovski, num interessante ensaio histórico intitulado Le Roman du Kremlin, publicado em 2004. A partir do Kremlin - a fortaleza e o conjunto de igrejas e palácios que albergam a sede do poder, em Moscovo - Fédorovski percorre a história da Rússia, desde Ivan o Terrível até à actualidade, explicando como o poder político foi exercido - quer durante a tirania czarista quer durante a ditadura do proletariado - sobretudo graças à solidez da parceria sempre renovada entre os seus sucessivos detentores e uma temível polícia secreta.

A essência do poder, na Rússia, parece estar contida no compromisso assumido pelo ainda jovem czar Nicolau II, durante um discurso proferido perante a sua corte, no Kremlin: «Estou satisfeito por ver aqui os representantes de todas as classes, que vieram testemunhar os seus sentimentos de súbditos obedientes e submissos. Eu acredito nesses sentimentos, que sempre animaram o povo russo. E quero que saibam que vou manter o poder absoluto, com tanta firmeza como meu pai». Esta era uma claríssima advertência dirigida a todos quantos ainda alimentavam ilusões liberais ou reformistas. O novo czar correspondia, assim, aos alertas feitos pela sua temível polícia secreta, a Okhrana.

Foi crucial o papel desempenhado pela polícia política e pelos seus espiões, quer dentro quer fora das fronteiras da Rússia e tanto durante o regime czarista como durante o regime comunista. Esta é a faceta mais interessante do livro, ao explicar a evolução da «megapolícia secreta» russa. Desde a jurisdição de excepção - a opritchnina - instituída pelo crudelíssimo e paranóico Ivan o Terrível, passando pela Okhrana, dos Romanov, e pelo KGB, de Estaline, até ao actual FSB, cujos poderes foram bastante reforçados por Vladimir Putin (antigo coronel do KGB). Por isso, há quem tema «um KGB em vias de reconstituição» e alerte para um «processo de sovietização e restauração» da Rússia.

Impressiona esta atracção pelo mal. E o fascínio que os tiranos exercem. Estaline é um modelo. Tão cruel como Ivan o Terrível, o czar vermelho estudou com minúcia os métodos de tortura que o próprio Ivan praticava. Tão tímido e tão asceta como Salazar, vivia num «modesto apartamento de três divisões» improvisado no gigantesco Kremlin. Nada pior do que uma nação humilhada para desejar o regresso dos seus fantasmas.
«DN-6ª» de 6 Abr 07

sexta-feira, 30 de março de 2007

O SÉCULO DE CONRAD

MUITO ANTES DE FRANCIS FORD COPPOLA se ter inspirado na extraordinária novela O Coração das Trevas, para realizar o filme Apocalypse Now (1979), já a filósofa Hannah Arendt considerara essa obra mais emblemática de Joseph Conrad como «a que melhor nos pode esclarecer sobre a verdadeira experiência do racismo em África», construindo a partir dela o capítulo III - Raça e burocracia - da segunda parte - O Imperialismo - do seu monumental estudo sobre As Origens do Totalitarismo, publicado em 1951.

Podemos recuar ainda mais no «terrível século XX», em cujas trevas mergulhou a prosa desoladamente lúcida de Conrad, para irmos ao encontro de outros que também perceberam até que ponto a vastíssima obra literária desse eslavo anglófilo, nascido no século XIX, intuía e prenunciava tantos horrores que devastaram a Europa colonialista, imperialista, culta e decadente, sobretudo na primeira metade do século passado. Desde logo André Gide, que aprendeu inglês expressamente para poder ler Conrad no original. Mas também Thomas Mann, que lhe dedicou um belo ensaio, em 1925, no qual analisa o «brilhante e fascinante romance policial e político» que é O Agente Secreto.

Józef Teodor Nalecz Konrad Korzeniowski, polaco de pai e mãe, como o nome de baptismo indica, nasceu em 1857, há século e meio. O romance O Agente Secreto foi publicado em 1907, há um século. Duas efemérides que constituem um óptimo pretexto para convocar de novo a obra de Joseph Conrad (1857-1924) e incitar novas gerações a lê-la. Se possível no original, como André Gide. Apesar de o inglês ser a terceira língua de Conrad, a seguir ao polaco e ao francês, era aquela que mais admirava e foi a que ele adoptou (tardiamente, aos 21 anos) para escrever sobre o «espectáculo enigmático» e «a empresa perigosa que é a nossa existência», captando o «fragmento salvo da voracidade do tempo», tornando ficção mais do que «um episódio inquietante nas vidas obscuras de alguns indivíduos, arrancados à multidão ignorada dos perplexos, dos simples, dos que não têm voz» - como ele nos explica no famoso prefácio a O Negro do Narciso.

A ganância, a vontade de dominação, os abismos de crueldade a que uma e outra podem conduzir os homens, por mais civilizados que se considerem, estão patentes em obras tão poderosas como O Coração das Trevas (1902), Nostromo (1904) ou O Agente Secreto (1907), na qual Conrad prova ser um escritor tão extraordinário em terra firme como nos rios e mares que banham quase toda a sua obra. E há, também, essa admirável história de redenção pessoal de um jovem marinheiro, que é Lord Jim (1900). E todas as outras obras escritas por esse aristocrata polaco que quis ser contrabandista e marinheiro antes de se tornar inglês e escritor - transformando-se em Jóia da Coroa Britânica, como hoje o evoca Juan Gabriel Vásquez na sua esplêndida História Secreta de Costaguana, o nome da república sul-americana inventada por Conrad há mais de um século!
«DN-6ª» - 30 Mar 07

sexta-feira, 23 de março de 2007

TIRANOS CULTOS


AINDA HOJE NOS SURPREENDEMOS com a revelação de que um tirano ou um déspota particularmente cruel e sanguinário era, afinal, um homem culto, leitor e admirador das melhores obras literárias, clássicas ou contemporâneas, apreciador de grande música ou dos melhores filmes, sem que tal o tenha demovido ou impedido de ordenar a execução dos crimes mais brutais – da tortura ao homicídio, do massacre ao genocídio.

O certo é que, como ainda recentemente notava o historiador e filósofo Tzvetan Todorov, o profundo conhecimento dos clássicos chineses não impediu Mao Zedong de se tornar num dos maiores criminosos do século XX. Como se o exercício despótico do poder político e a frequentação dos clássicos fossem actividades totalmente dissociadas, permanecendo isoladas em compartimentos estanques na cabeça de um tirano.

Ao longo da história, não são assim tão raros os exemplos, porventura anómalos, de coexistência de cultura e crueldade no espírito de um déspota. Átila (395-453), único imperador dos Hunos, é um caso assaz curioso e enigmático. Sempre designado como o flagelo de Deus e apresentado como símbolo da ferocidade dos bárbaros e sinónimo de massacre e devastação, a verdade é que era um homem cultivado, falava fluentemente o grego e o latim, era um diplomata excepcional e um grande estratego – uma espécie de Napoleão que logrou, em 15 anos, construir um império do Danúbio aos Urais.

Numa excelente biografia de Átila (Gallimard, 2006), Eric Deschodt considera-o um «imperador anarquista», um homem encantador e tolerante, mais diplomata do que guerreiro, embora temível e implacável em combate. A sua ferocidade, que reflectia os costumes da época, não ultrapassava, no entanto, a dos generais romanos ou persas. Eric Deschodt salienta, aliás, que «a ferocidade da maioria dos imperadores romanos do seu tempo ultrapassava, de longe, a de Átila, sem igualar a sua bravura e o seu génio». Átila queria ser amado e temido, preferindo a sedução ao terror. Podia ter conquistado Roma e Constantinopla, mas desdenhou fazê-lo. Matou milhares de inimigos em combate, mas nunca perseguiu ninguém. E admitiu que era ele «o pior inimigo» de si próprio.

Seria improvável lobrigarmos estas características pessoais em Estaline, um dos mais cruéis tiranos da História. Todavia, conforme nos revela Simon Sebag Montefiore no livro Estaline - A Corte do Czar Vermelho (Aletheia, 2006), esse déspota paranóico e hipocondríaco era um bon vivant, lia Goethe, Maupassant e Zola, admirava Dostoievski, adorava ópera, ouvia vezes sem conta o mesmo concerto de Mozart, era cinéfilo e fã de Spencer Tracy e Clark Gable. É irresistível compará-lo ao carrasco psicopata e nazi do sórdido romance de Jonathan Littell, Les Bienveillantes (Gallimard, 2006), capaz de ler Stendahl e Flaubert numa pausa entre dois massacres bem ordenados. Desgraçadamente, nem sempre se pode afirmar, como Dostoievski, que «a beleza salvará o mundo».

«DN-6ª» - 23 Mar 07

sexta-feira, 16 de março de 2007

POLÍTICOS PARADOXAIS


SERÁ POSSÍVEL UM POLÍTICO APRESENTAR-SE, por um lado, como um homem íntegro, fiel aos ideais e aos amigos, devoto do serviço público, homem de cultura, humanista e amante da justiça, preocupado com a sorte dos mais pobres e desfavorecidos, adepto da ajuda ao Terceiro Mundo, ecologista e defensor do meio-ambiente – e comportar-se, por outro lado, como um chefe de facção astuto e sectário, capaz de desferir golpes baixos e de montar operações clandestinas para tramar adversários ou afastar do caminho rivais do seu próprio bando, usando e abusando dos privilégios e usufruindo de todos os luxos, sem olhar a despesas sumptuárias efectuadas com o dinheiro dos contribuintes?

Se admitirmos que a política não é o terreno privilegiado das virtudes teologais, nem é redutível a uma visão maniqueísta em que só contam o Bem e o Mal, traduzindo-se, pelo contrário, numa actividade bastante complexa, em que nem tudo o que parece é, as aparências iludem e os melhores resultados tantas vezes só se atingem por caminhos tortuosos, métodos pouco ortodoxos e procedimentos inconfessáveis – então, a resposta àquela questão só pode ser afirmativa. Sim, em democracia, os políticos com dimensão e fôlego muito superiores aos de um cidadão comum, não são modelos de virtudes que aspirem à santidade, nem Savonarolas que pregam a moral e acabam numa pira!

A carreira de um político de longo curso – ou de um político fora do comum, se se preferir – está cheia de «belezas ácidas». Esta feliz expressão, usou-a Serge July há quase 20 anos, num brilhante ensaio intitulado Le Salon des Artistes, simultaneamente elogioso e crítico, generoso e cruel, sobre cinco «feras» que, nos anos finais da década de 1980, ainda dominavam a «arena» política em França: François Mitterrand, Jacques Chirac, Giscard d’Estaing, Raymond Barre e Michel Rocard. De entre eles, não hesito em destacar Mitterrand e Chirac como políticos de longo curso e fora do comum.

Em ambos assentam como luvas as palavras de Serge July: «Os grandes artistas da política distinguem-se do magote de ambiciosos pela sua fé nas virtudes curativas da derrota». Embora subestimando, por vezes, os seus adversários, o certo é que Mitterrand e Chirac sofreram e superaram várias derrotas. E, assim como Mitterrand e os seus fiéis foram «beber» no exemplo de De Gaulle para melhor o combater, também Chirac e os seus adeptos se inspiraram no «modelo mitterrandiano» para conquistar o Eliseu.

Como Mitterrand há uma dúzia de anos, é agora Chirac quem suscita livros com balanços da sua longa carreira política de 45 anos. Cito dois. Em L’Inconnu de l’Élysée, Pierre Péan, jornalista de esquerda, enaltece as suas qualidades humanas e políticas. Em Chirac, Mon Ami de Trente Ans, Jean-François Probst, político de direita e colaborador próximo de Chirac, rebaixa-o, apontando-lhe inconfessáveis defeitos e abusos de poder. É assim, contraditório e paradoxal, o retrato fidedigno de alguns políticos maiores.

«DN-6ª» de 16 Mar 07

sexta-feira, 9 de março de 2007

A «MERDA DO DIABO»

BASTA OBSERVAR O MAPA DE ÁFRICA, fixando o olhar no Golfo da Guiné e nos seus oito Estados ribeirinhos produtores de petróleo - com a Nigéria à cabeça, mas também Angola e São Tomé e Príncipe na lista - para se perceber porque é que, em Washington, esta zona geoestratégica crucial é designada como o «próximo Golfo» - «next Gulf». O volume de reservas de petróleo já recenseadas - a maior parte offshore - é de tal ordem, que o seu inevitável destino é tornar-se a grande alternativa ao Golfo Pérsico. A cobiça dos países do Ocidente, com os EUA à cabeça, só tem paralelo na avidez das chamadas potências emergentes como a China, a Índia e o Brasil, que também já lá estão.

A «maldição do ouro negro» - «merda do diabo», como chamam ao petróleo em África - está bem patente nesse insustentável paradoxo que é a Nigéria. Apesar de ser o primeiro produtor de petróleo africano e o quinto maior produtor mundial, 70 por cento dos seus habitantes vivem com pouco mais de um euro por dia, em bairros de lata onde se amontoam aos milhões, ameaçados pelas emanações tóxicas que provocam doenças respiratórias, pelas constantes fugas de petróleo que devastam zonas agrícolas e zonas piscatórias poluindo a cadeia alimentar, pelo banditismo e a corrupção, pela cupidez dos interesses privados que tomaram conta das instituições públicas. Assim, não espanta que a Nigéria vegete no 159º lugar do ranking de desenvolvimento humano da ONU (entre 177 países) e que a esperança de vida dos nigerianos não ultrapasse os 44 anos.


Hoje, não faltam os estudos que confirmam o forte aumento de guerras civis em países produtores de petróleo, gás natural e diamantes, desde o início da década de 1970 até ao final do século XX. Também o recente filme de Edward Zwick sobre a tragédia da Serra Leoa - Diamante de Sangue - serviu para ilustrar esse «círculo vicioso» que faz mergulhar na pobreza e na desgraça tantos países da África e da Ásia. Alice Sindzingre descreve-o com toda a crueza no Le Monde: «detenção de um recurso natural cobiçado nos países ricos; competição entre “senhores da guerra” para controlar a sua predação e para comprar armas; populações submetidas pelo terror; guerra civil perpétua».


O que hoje os estudos revelam e o cinema põe em evidência, foi objecto, há mais de 20 anos, de um surpreendente romance intitulado Uma Ambição no Deserto, fruto da imaginação, ironia, premonição e talento do escritor egípcio Albert Cossery. O primeiro-ministro de um emirado pobre, pacífico e feliz - por não ter «merda do diabo»! - deseja desempenhar um papel de relevo na cena internacional, atraindo as atenções da «grande potência imperialista». Promove, então, uma frente de libertação fantasma, uma série de atentados à bomba e uma falsa sedição para alarmar os «chacais». A metáfora é perfeita. Os livros de Cossery, todos editados pela Antígona, merecem ser lidos de fio a pavio. A imaginação é fértil, os personagens delirantes, a ironia mordaz e a escrita soberba.

«DN-6ª» - 9 Mar 07
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sexta-feira, 2 de março de 2007

CARICATURAS CONTRA O MEDO


PODE-SE CARICATURAR TUDO E TODOS na praça pública? Ou o incitamento público ao riso e à gargalhada têm limites? Num Estado de direito democrático, pluralista e laico, os únicos limites objectivos ao exercício da liberdade de expressão são os fixados por lei geral e abstracta (por exemplo: o abuso da liberdade de Imprensa; o direito ao bom nome e reputação), não sendo admissível, todavia, a existência de qualquer mecanismo institucionalizado de censura prévia. Quaisquer outros limites só podem ser de natureza individual e subjectiva, voluntariamente assumidos e aceites por cada cidadão, em nome das suas convicções pessoais (nomeadamente, as religiosas) ou do que considera serem, por exemplo, regras de boa educação e critérios de bom senso e bom gosto.

Plantu, um dos mais notáveis caricaturistas franceses da actualidade (Le Monde, L’Express), invocava há poucos meses a máxima de Pierre Desproges - «on peut rire de tout, mais pas avec n’importe qui» («pode-se rir de tudo, mas não com qualquer um») - reivindicando para si próprio o direito à autocensura. A título de exemplo, invocava o facto de «não entrar na vida privada dos homens políticos». E explicava que «talvez não seja preciso desenhar Maomé para criticar o fundamentalismo». Cá em baixo, na Terra, há alvos mais do que suficientes para caricaturar – barbudos, intolerantes e fanáticos, guias religiosos e chefes políticos (Ahmadinejad e Bush incluídos). Por isso mesmo, diz Plantu, convém «reflectir sobre as nossas responsabilidades antes de embarcarmos em ataques acima das nuvens». Mais: «Podemos ser cáusticos e agressivos, mas sem ódio, sem desprezo, com subtileza, para não cairmos na armadilha dos integristas».

A posição adoptada por Plantu é compreensível e séria, tendo em conta o tipo de publicações em que colabora. Mas decorre de uma opção pessoal do caricaturista e não pode ser erigida em regra. Um jornal satírico dificilmente sobreviveria, se adoptasse tal critério. Por isso, é inteiramente legítima a atitude assumida pelo jornal Charlie Hebdo durante o julgamento de que foi alvo, em Paris, acusado por organizações islâmicas de publicar caricaturas que constituem uma «injúria pública contra um grupo de pessoas devido à sua religião» (a sentença só será conhecida a 15 de Março). Como sublinhou o seu director, Philipe Val: «Em terra laica, a religião não é um poder político. E, quando pretenda sê-lo, é preciso que ela aceite ser repelida para o domínio privado que é o seu». Sempre que qualquer religião revele o desejo de impor as suas regras a uma sociedade democrática - que é, por natureza, laica - tem de ser tratada exactamente de acordo com aquilo que é: «uma ideologia como qualquer outra, sujeita a todas as críticas».

Tão importante como não cairmos na armadilha dos integristas, com diz Plantu, é não cairmos na armadilha da nossa própria tolerância. O processo do Charlie Hebdo é um claro aviso. É essencial não dobrar a espinha. É preciso não ceder ao medo!

«DN-6ª» - 2 Mar 07

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

MÚSICA E PALAVRAS


QUANDO MENCIONAMOS UMA ÓPERA, a primeira referência que nos ocorre é o nome do compositor, isto é, do autor da partitura musical. A partir daqui, é habitual passarmos a discutir os intérpretes que preferimos - sejam os cantores, sejam os maestros. Também se tornou frequente comentar as encenações e, até, as cenografias. Bem mais raro é falar dos autores dos libretos, mesmo quando se trata de excelentes escritores, dramaturgos e poetas - ou, até, dos próprios compositores. «Prima la musica - dopo le parole»? «Prima le parole - dopo la musica»? Para uma larga maioria de amantes da Ópera, o predomínio da música sobre as palavras parece não oferecer, hoje, qualquer dúvida.

E, no entanto, é evidente que a Ópera nunca poderá dispensá-las: nem a música, nem as palavras. Não existe Ópera sem partitura ou sem libreto. Mesmo sendo verdade que uma óptima partitura consegue sobreviver a um libreto medíocre, ao passo que uma partitura medíocre nunca poderá salvar um óptimo libreto. Seja como for, são vários os libretistas de grande talento que conquistaram lugares de relevo na história da Ópera, ao longo dos 400 anos que ela já percorreu. Sendo o espaço exíguo para mencioná-los um por um, optei por referir apenas três, entre os melhores, dadas as magníficas parcerias que formaram com três dos maiores compositores da história da Música.

Na segunda metade do século XVIII, é incontornável a parceria constituída pelo divino Mozart e o libertino abade italiano Lorenzo da Ponte – autor de 36 libretos e das pitorescas Memórias de uma vida tumultuosa, digna de Casanova. Três óperas bastaram para o imortalizar, ao escrever para Mozart os libretos de três obras-primas: Le Nozze di Fígaro (1786), Don Giovanni (1787) e Cosi Fan Tutte (1790). Uma dupla infernal, em que o génio do compositor de modo algum diminui o talento do libretista.

Na segunda metade do século XIX, outra dupla notável reuniu Giuseppe Verdi e Arrigo Boito, excelente poeta italiano, além de compositor e libretista. Colaborou com Verdi na remodelação de Simon Boccanegra (1881), dando um contributo decisivo para a transformar numa ópera admirável. Mas foi, sobretudo, o autor dos libretos de outras duas obras-primas de Verdi: Otello (1887), a partir da peça homónima de Shakespeare; e Falstaff (1893), a partir de duas outras peças de Shakespeare: As Alegres Comadres de Windsor e Henrique IV. Boito mostra-se à altura de Shakespeare e de Verdi.

Já no princípio do século XX, a magnífica colaboração entre Richard Strauss e o excelente poeta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal deu origem a algumas óperas memoráveis, sobretudo: Elektra (1909), Der Rosenkavalier (1911), Ariadne auf Naxos (1913), Die Frau Ohne Shatten (1919) e Arabella (1933), esta última estreada já depois da morte de Hofmannsthal, em 1929. O inegável valor intrínseco dos libretos foi admiravelmente posto em relevo pelo génio de Richard Strauss. Desça o pano!

«DN-6ª» de 23 Fev 07
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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

SOB O SIGNO DE ORFEU

Claudio Monteverdi
FOI HÁ 400 ANOS, em Mântua, provavelmente no dia 24 de Fevereiro de 1607, que nasceu esse género genuinamente europeu da grande música a que chamamos Ópera. O nascimento foi auspicioso e ficou a dever-se, acima de tudo e todos, ao génio musical de Claudio Monteverdi, que concebeu uma «favola in musica» intitulada L’Orfeo, a partir de um libreto escrito por Alessandro Striggio, secretário de Vincenzo Gonzaga, Duque de Mântua, patrono (e nem sempre bom patrão) do grande compositor desde 1590.

Poderemos imaginar o cenário em que foi concebida a primeira grande ópera da história da música, se pensarmos que o Palácio Ducal de Mântua era, todo ele, decorado por obras de grandes artistas da Renascença, como Corregio, Il Perugino, Mantegna ou Ticiano - e que Rubens foi o pintor oficial do Duque de Mântua entre 1600 e 1608.

Protegido por Vincenzo Gonzaga foi também Torquato Tasso, cuja poesia serviu de inspiração para muitos dos belíssimos madrigais compostos por Monteverdi. Da obra mais famosa de Tasso, Jerusalém Libertada, Monteverdi escolheu as mais belas estrofes do Canto X para compor outra das suas obras-primas, Il Combattimento di Tancredi e di Clorinda, estreada em 1624, quando o «oracolo della musica» já vivia em Veneza.

Mas a ópera L’Orfeo é um marco incontornável da história da música, porque é a obra fundadora da mais completa de todas as artes, porventura a «arte total», justamente por incorporar todas as outras artes – desde a música à literatura, passando pelo teatro e pela pintura. E é uma ópera sublime, de rara emoção e beleza, na qual o texto, a intriga, a arte cénica, o canto e a música instrumental se conjugam numa perfeita síntese.

A beleza de L’Orfeo é comparável ao esplendor das Vespro della Beata Vergine, obra publicada por Claudio Monteverdi em 1610, sem dúvida alguma a mais admirável e mais impressionante de todas as obras de música sacra alguma vez ouvidas, antes das Paixões de Bach. Tanto L’Orfeo como as Vespro della Beata Vergine ilustram o talento verdadeiramente genial de Monteverdi, que consegue ser inovador e, mesmo, profético, sem renunciar à herança da polifonia quinhentista, que ele incorpora no estilo novo. Foi ao operar a síntese entre tradição e inovação, justapondo o antigo e o moderno de modo tão criativo, que Monteverdi se tornou num compositor pioneiro e revolucionário.

A escolha do mito de Orfeu como tema da sua primeira obra dramática, justifica-se duplamente. Por um lado, enquanto «drama grego», tal mito ajusta-se na perfeição ao estilo novo, que cultiva a antiguidade clássica. Por outro lado, como salientou Nikolaus Harnoncourt, o mito de Orfeu oferece a Monteverdi uma «perspectiva programática»: a de «cantar o poder da Música, que triunfa sobre tudo e todos». Como disse Platão: «ela penetra no interior da alma» e «apodera-se dela da forma mais enérgica». Com a música de Monteverdi, ascendemos aos domínios do inefável. O seu fascínio é irresistível.

«DN-6ª» de 16 Fev 07

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

A POLÍTICA DO MEDO

A «CRUZADA ANTICOMUNISTA» e a «caça às bruxas» desencadeadas pelo senador Joe McCarthy no começo da Guerra Fria, entre 1950 e 1954, constituem um dos capítulos mais negros e vergonhosos, não só da história do Partido Republicano, mas da própria história da democracia nos EUA. Num excelente e documentado ensaio intitulado The Age of Anxiety - McCarthysm to Terrorism, o jornalista e historiador norte-americano Haynes Johnson recorda outro episódio negro da história dos EUA: a onda de histeria colectiva provocada pelo Grande Pânico Vermelho (Great Red Scare), nos anos que se seguiram à I Guerra Mundial. Mas o seu objectivo fundamental é analisar e descrever, em pormenor, o McCarthysmo, pondo em relevo os paralelismos e as semelhanças que devem estabelecer-se entre esse período negro da história dos EUA e o período actual, iniciado já no século XXI, após os atentados de 11 de Setembro de 2001. Como Haynes Johnson salienta, o McCarthysmo continua a ser uma história sem fim à vista.

Tal como na época do McCarthysmo, a América de George W. Bush tem vindo a experimentar novos exemplos de tácticas de manipulação e intimidação características do senador McCarthy. Desta vez, porém, a iniciativa foi do próprio Presidente. Desde os atentados de 11 de Setembro, sucederam-se os exemplos de assassínios de carácter, de ofensas ao bom nome dos opositores, de acusações de falta de patriotismo dirigidas aos críticos da administração, de pressões exercidas sobre os meios de comunicação social, o Congresso e o poder judicial, de fugas selectivas de informação classificada visando a demonização de dissidentes, destruindo carreiras de funcionários públicos e manchando a reputação de oficiais das Forças Armadas. Tudo isto, restringindo e violando direitos, liberdades e garantias, recorrendo a métodos inquisitoriais do tipo «caça às bruxas» para intimidar os que se atrevem a protestar publicamente contra o Governo e não hesitando em invocar o segredo de Estado para encobrir os erros e mentiras do Governo.

O McCarthysmo foi o resultado da conjugação de ansiedades, medos e suspeitas difundidos na população, para criar um clima de histeria e paranóia na vida pública e na retórica política. Esses medos e suspeitas foram explorados e exacerbados, com cinismo e demagogia, por políticos oportunistas e sem escrúpulos, como Joseph McCarthy, que nunca hesitou em recorrer à mentira, à difamação e às falsas acusações. Haynes Johnson salienta que o McCarthysmo marcou indelevelmente, nos últimos 50 anos, a caminhada do Partido Republicano para a direita radical. No McCarthysmo mergulham as raízes do actual movimento conservador. Foi nele que foram beber os antigos esquerdistas que se tornaram neoconservadores. A chamada «cultura de guerra» que contamina os discursos de muitos políticos e intelectuais nos EUA, é outra das heranças do McCarthysmo. Quer no plano interno, quer no plano externo, a política do medo tem sido desastrosa.

«DN» - 09 Fev 07
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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

ÚLTIMOS CIGARROS

HÁ O ALCATRÃO, a nicotina e o monóxido de carbono. Bem sei. Mas há, também, o polónio-210 (210Po), «a pior de todas as substâncias», descoberto em 1898 por Pierre e Marie Curie. É mil vezes mais tóxico do que o plutónio e um milhão de vezes mais do que o cianeto. Dez microgramas bastam para matar, lenta e irreversivelmente. Como no caso do ex-espião soviético Alexandre Litvinenko, envenenado por essa dose letal, que lhe devorou todos os glóbulos vermelhos nas últimas semanas de 2006.

Como explica Fabien Gruhier, num artigo publicado em Le Nouvel Observateur, o polónio-210 está omnipresente na natureza e, mesmo, no organismo humano, embora em concentrações ínfimas, já que é permanentemente produzido pela desintegração do urânio e do tório, abundantes na crosta terrestre. Todavia, os fumadores absorvem mais polónio do que os não fumadores, por causa dos fosfatos ligeiramente radioactivos que são utilizados como fertilizantes nos campos de tabaco. Pior: em estudo científico feito nos EUA afirma-se que a inalação de polónio «natural», via fumo do cigarro, «contribui pelo menos em 90 por cento para os cancros do pulmão dos fumadores».

Aconselhado por um médico especialista, que nem sequer me falou do polónio e me poupou a um sermão sobre os malefícios do tabaco, preparo-me para fumar o último cigarro dentro de poucos dias. O primeiro impulso que tive, nem foi o de reler o célebre monólogo de Tchekov, que interpretei aos 18 anos, mas sim o de voltar a folhear a obra-prima de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, publicada em 1923 (a Editorial Minerva deu à estampa uma versão portuguesa, pouco rigorosa e sem qualquer data). Espero bem que não me aconteça o mesmo que a Zeno Cosini, com as tentativas repetidas, inúteis e tragicómicas para deixar de fumar enquanto reflecte sobre a sua existência.

As reflexões e interrogações do protagonista, Zeno (ou do escritor, Ítalo Svevo, pseudónimo de Ettore Schmitz), fazem todo o sentido. É pior o vício, ou a obsessão de se libertar do vício? A doença, ou a obsessão da doença? Os dias cheios de cigarros, ou os dias plenos de promessas de não fumar mais? Não será só quando uma coisa ou uma pessoa está a ponto de se perder que o prazer se inflama? Como diria o velho higienista de Goldoni, quererei morrer são, depois de ter passado toda a vida doente? A vida – diz Zeno – parece-se um pouco com a doença. A grande diferença, relativamente às outras doenças, é que a vida é sempre mortal. E não suporta qualquer tratamento.

No leito de morte, após um acidente de automóvel, o escritor viu um sobrinho a fumar e pediu-lhe um cigarro. O sobrinho disse-lhe que não. E Svevo, já com a língua entaramelada, balbuciou: «Este seria verdadeiramente o último cigarro». Foi em 1928. Quase 80 anos depois, espero bem que o semáforo vermelho que me acenderam – e, já agora, o polónio-210 – me intimem a fumar o último cigarro daqui a uns dias.

«DN» - 02 Fev 07
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segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

O EMBARAÇO DA ESCOLHA


APROVEITO ESTA COLUNA para aliviar um pouco a consciência em relação á escolha que fiz dos 10 portugueses mais importantes da nossa História, respeitando as regras do jogo que o DN estabeleceu. O embaraço da escolha foi grande, face à primeira lista que fiz, pois integrava cerca de meia centena de personalidades portuguesas mais relevantes, quer da vida política quer da vida cultural. Foi a partir dela que tive de eleger apenas 10. É essa lista mais longa que aqui vou referir, poupando justificações que não cabem num espaço tão exíguo para o efeito. O critério é subjectivo e a ordem é cronológica.

Primeiro a Monarquia (1143-1910). Entre reis e outras personalidades políticas, elegi: D. Afonso Henriques (1108-1185), D. Dinis (1261-1325), D. João I (1357-1433), D. Duarte (1391-1438), o Infante D. Pedro (1392-1449), D. João II (1455-1495), Vasco da Gama (1469-1524), o Marquês de Pombal (1699-1782), D. Pedro IV (1798-1834), Mouzinho da Silveira (1780-1849) e Fontes Pereira de Melo (1819-1887). Para a minha lista dos 10, acabei por eleger D. João II, D. Pedro IV e Fontes Pereira de Melo.

Entre homens de cultura durante a Monarquia, elegi: Fernão Lopes (1380-1459), Gil Vicente (465-1536), Grão Vasco (1475-1542), João de Barros (1496-1570), Damião de Góis (1502-1574), Pedro Nunes (1502-1578), Fernão Mendes Pinto (1510-1583), Luís de Camões (1524-1580), Padre António Vieira (1608-1697), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Carlos Seixas (1704-1742), António José da Silva (1705-1739), Luís António Verney (1713-1792), Domingos Bontempo (1771-1842), Almeida Garrett (1799-1854), Alexandre Herculano (1810-1877), Camilo Castelo Branco (1825-1890), Eça de Queiroz (1845-1900) e Cesário Verde (1855-1886). À lista dos 10, apenas foram parar Luís de Camões, António Vieira, Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós.

No século XX, elegi Teixeira Gomes (1860-1941) e Afonso Costa (1871-1937), entre os políticos da I República. Saltei por cima do Estado Novo, já que Salazar (1889-1970) só é relevante pelas piores razões. Quanto à resistência à ditadura, ao 25 de Abril e à II República, optei por Álvaro Cunhal (1913-2005), Salgueiro Maia (1944-1992) e Mário Soares (1924), único dos vivos que citei, por ser o símbolo da democracia e da integração europeia. Só Afonso Costa e Mário Soares couberam na lista dos 10.

Percorrendo a cultura portuguesa do século XX, elegi, entre os que já morreram: Raul Brandão (1867-1930), Teixeira de Pascoaes (1877-1952), Fernando Pessoa (1888-1935), Amadeo de Souza-Cardozo (1887-1918), Aquilino Ribeiro (1885-1963), Vieira da Silva (1908-1992), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Amália Rodrigues (1920-1999), Mário Cesariny (1923-2006), Alexandre O’Neill (1924-1986) e José Cardoso Pires (1925-1998). Vieira da Silva está entre os 10. O embaraço da escolha foi grande. Mas alivio a consciência expondo a lista toda.

«DN» - 26 Jan 07
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CENTELHAS DE GUERRA


FOI HÁ 90 ANOS, em Agosto de 1917, que o Papa Bento XV apelou aos dirigentes dos países envolvidos na Grande Guerra - que já grassava há três sangrentos e terríveis anos - para que pusessem termo ao «inútil massacre» e se dispusessem a construir uma paz duradoura. Mas, nesse mesmo ano, um sentimento aparentemente incompreensível de superioridade moral e civilizacional impeliu o grande escritor alemão Thomas Mann a considerar a guerra como «uma purificação, uma libertação, uma enorme esperança». Com insuportável arrogância intelectual, afirmou: «A vitória da Alemanha será a vitória da alma sobre o número. A alma é oposta ao ideal pacifista da civilização». E formulou esta questão absurda: «Acaso não será a paz um elemento de corrupção civil?».

Já durante a República de Weimar (1919-1933), Thomas Mann iria abandonar as ideias conservadoras, nacionalistas e anti-parlamentares, denunciando com presciência e coragem o perigo da ascensão de Hitler ao poder. Mas aquilo que escreveu em 1917 era «uma clara imagem da teoria essencialmente militarista alemã, segundo a qual a guerra enobrece». Sublinha-o a historiadora norte-americana Barbara Tuchman (1912-1989) no admirável livro que publicou em 1962 - The Guns of August - sobre os trágicos trinta e um dias do Verão de 1914 que mudaram a face do mundo, pondo definitivamente termo ao século XIX e iniciando «o terrível século XX», como Churchill lhe chamou.

Chefes políticos ineptos e medíocres, servidos por generais arrogantes e obtusos, deram corpo a interpretações, por vezes distorcidas e oportunistas, de teorias filosóficas sobre a natureza do homem, a essência da guerra e as culturas nacionais. Na Alemanha, as teorias de Clausewitz e a imagem de Aníbal e dos elefantes, na «batalha decisiva» de Canas, serviam para explicar o Plano Schliefen. Ora, «o que forjou o plano de Schliefen não foi Clausewitz, nem sequer a batalha de Canas, mas sim o egoísmo acumulado que dominava o povo alemão» - afirma Barbara Tuchman. Foram epígonos de Fichte, Hegel e Nietszche que alimentaram a ilusão de «um povo alemão eleito pela Providência» para conduzir o mundo a «um glorioso destino de apaixonante Kultur», no qual só «o super-homem se elevaria acima do âmbito vulgar e corrente». Em França, foi a ideia de «élan vital», enunciada pelo filósofo Henry Bergson, que serviu de base à doutrina militar da «offensive à outrance», elaborada pelo general Foch, cerne do medíocre Plano 17, que descurava por completo a guerra defensiva. Clausewitz revolveu-se na tumba.

Tão ilusório era o Plano 17 como o Plano Schliefen. É o fracasso de ambos que prolonga o massacre, «enquanto da torre do orgulho na cidade / a morte gigantesca olha com desprezo». Versos de Edgar Allan Poe que abrem outro admirável livro de Barbara Tuchman sobre os primórdios do século XX: The Proud Tower. O paralelismo com este não menos conturbado início do século XXI é inevitável. A arrogância civilizacional e o apelo à força bruta estão à vista. Uma centelha basta para desencadear a loucura.

«DN» 19 Jan 07
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domingo, 28 de janeiro de 2007

SÃO TOMÁS E AS ALMAS

A Apoteose de São Tomás de Aquino, pintada por Francisco de Zurbarán no ano de 1631, deve ser dos quadros mais notáveis, complexos e ambiciosos do grande pintor espanhol. São Tomás de Aquino, conhecido como o Doutor Angélico, ocupa o centro do quadro, rodeado por quatro Padres (Pais) da Igreja. Acima dele, surge o Espírito Santo, com Cristo e a Virgem, do lado esquerdo, e São Paulo e São Domingos, do lado direito. Abaixo dele, um grupo de frades dominicanos em oração, à esquerda, e outro grupo de figuras também em oração, à direita, do qual se destaca o imperador Carlos V.

Ao admirar o quadro, no Museu de Belas Artes de Sevilha, foi irresistível pensar no breve texto de Umberto Eco Sobre a alma dos embriões, no qual o escritor, ensaísta e professor (cuja tese de doutoramento, em 1956, foi sobre O Problema Estético em São Tomás), evoca o pensamento do grande teólogo italiano (1225-1274) acerca da criação da alma, independentemente da matéria corporal. Para São Tomás, os vegetais têm uma «alma vegetativa» que nos animais é absorvida pela «alma sensitiva», enquanto que nos seres humanos essas duas funções são absorvidas pela «alma racional». E é a esta que o homem deve o facto de ser dotado de inteligência, o que «faz dele uma pessoa».

Citando a Summa Theologica e a Summa Contra Gentiles, Eco sublinha que São Tomás «tem uma visão muito biológica da formação do feto». Deus só introduz, insufla, a alma, gradualmente, quando o feto adquire, primeiro, a «alma vegetativa» e, depois, a «alma sensitiva». Apenas num corpo já formado é criada a «alma racional». Ainda hoje subsiste a dúvida sobre qual é esse exacto momento. Mas, para São Tomás, é claro que existe uma gradação na geração, «por causa das formas intermediárias de que é dotado o feto, desde a origem e até á sua forma final». Mais ainda: os embriões não participarão na ressurreição da carne, não ressuscitarão, pois que a «alma racional» não foi infundida neles e, por essa razão, eles não são seres humanos. Afirma-o o Doutor Angélico.

São Tomás não é uma autoridade qualquer. É, como salienta Eco, a «Autoridade por excelência», é a «coluna que serve de suporte á teologia católica». Coluna essa que, curiosamente, digo eu, é bem explícita no quadro de Zurbarán. Daí que, para Eco, sejam tão surpreendentes «as actuais posições neofundamentalistas católicas». Será caso para perguntar, como fez Giovanni Sartori, se não se estará a estabelecer uma certa confusão entre a «defesa da vida» e a «defesa da vida humana». O que levaria a considerar como homicídios, por exemplo, derramar esperma para fins não fecundantes, comer frangos, matar mosquitos ou consumir vegetais. Para já nem falar, como lembra Eco, dos gurus que andam pelas ruas com gaze na boca, para evitarem matar micro-organismos quando respiram. Em suma: recomenda-se, a certos católicos, uma leitura atenta de São Tomás de Aquino. E, já agora, uma visão da magnífica pintura de Francisco de Zurbarán.

«DN» - 12 Jan 07
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A ÚLTIMA BARREIRA


ESCREVEU VLADIMIR JANKÉLÉVITCH (1903-1985): «A morte na primeira pessoa, isto é, a minha, já não poderei falar dela, porque se trata, efectivamente, da ‘minha’ morte». Por isso - acrescenta - «resta a morte na segunda pessoa, que é a morte do próximo», ou seja, a que mais se assemelha à minha «sem ser a minha» e, também, «sem ser a morte impessoal e anónima do fenómeno social». É a morte de «outra pessoa que não eu e, ao mesmo tempo, é a que me toca mais de perto». A «filosofia da morte», para quem pensa nela ou sobre ela, «é produzida para nós pelo próximo que está ao nosso lado».

Tinha 18 anos quando fui confrontado pela primeira vez com a morte na segunda pessoa, a morte de alguém muito próximo de mim e que eu amava: meu pai. Tinha ido visitá-lo ao hospital numa tarde soalheira de Maio de 1963. Estava inconsciente e muito mal, numa cama dos «cuidados intensivos», após uma operação delicada e de alto risco. Apesar disso, não podia nem queria imaginar ou, sequer, admitir a possibilidade de ele morrer. Tinha 44 anos e morreu nessa noite, sozinho, na cama do hospital. Creio que se morre sempre sozinho, numa solidão imensa, por muitas que sejam as pessoas que estão por perto. «Alguém nasceu ou morreu acompanhado, porventura?» - pergunta António Lobo Antunes, na belíssima crónica que publicou na Visão em 28 de Dezembro.

Minha mãe morreu dois dias antes, em 26 de Dezembro, na cama de um hospital de Roma, a cidade onde viveu quase toda a sua vida. Tinha 81 anos. Soube da sua morte por telemóvel. Mas a voz de quem me falou pareceu-me, primeiro, ser a dela. Regozijei-me. E mais estranha foi a sensação, ao tomar consciência da sua imobilidade definitiva e irrevogável. Quebrou-se, assim, a última barreira. Torno a citar Jankélévitch: «Quando desaparecem os nossos pais, desaparece a última barreira biológica. Depois, é a nossa vez. E essa não é uma ideia muito agradável». Leio agora as interrogações de um pintor, António Dacosta (1914-1990), num recorte do DN : «Porque é que se nasce e se morre? É absurdo, não é? Há um apelo de morte que se insinua pouco a pouco em nós».

É provável que, ao escrever esta breve crónica sobre a morte na segunda pessoa, neste caso sobre a morte dos meus pais, eu esteja a fazer batota. Essa «batota essencial» de que também falou Jankélévitch e que consiste em «aplicar a morte aos outros através de uma relação perpétua e de um adiamento». Dito de outro modo: «Tenho consciência da morte e sei que morrerei, mas não o creio». Ou, então, como disse Jacques Madaule: «Sei que morrerei, mas não acredito nisso». Um contra-senso. Tal como a morte, «que dá um sentido à vida, ao mesmo tempo que lhe retira esse sentido». E uma ironia, sobre a qual também escreveu Jankélévitch: «A ironia, que já não teme as surpresas, joga com o perigo». Neste caso, perigo de morte, abatida que foi a última barreira. Além do nada que é a morte, «quase nada é desprezível, quase nada é indispensável». Daí a derradeira das ironias desse grande filósofo: «A humanidade é eterna; eu não, infelizmente!».

COM VISTA AO NATAL


DO DESTINO DE MUITOS ENJEITADOS pouco ou nada se sabe, depois de os largarem ao deus dará, na roda, na lixeira ou na mata. No Conto do Natal de João de Araújo Correia, D. Rita de Cássia - governanta do rico e avarento Comendador Clarimundo, que exalava «o cheiro do ouro», mas que «bastardos de portas dentro é que não queria» - já enjeitara para aí uma dúzia deles, com a ajuda da parteira, «uma comadrona mais velha do que a sé de Braga». Numa véspera de Natal, a governanta «deitou cá fora um rapagão loiro e rosado como quem o fizera» e a parteira pôs-se a caminho, de «embrulho ao colo». Mas a inclemência do tempo, a lama e o lodo não a ajudaram nada. «Começou a caminhar às cegas», perdeu a tramontana e, após várias peripécias e rebates de consciência, acabou a depositar o rapagão num degrau cimeiro do «altar-mor da capelinha do povo». Na missa de Natal, um «desbocado e caritativo padre» subiu ao altar muito descomposto e pregou um sermão esmaltado de obscenidades e muito choro, que os fiéis acompanharam. Mas, ao proclamar que «este ano o Menino é de carne e osso» e «quem me dera apanhar aqui a cadela que o enjeitou!», o Comendador Clarimundo decidiu, por uma vez, reconhecer a paternidade, prometendo adoptar o rapagão e casar com a sua governanta. Assim, terá ganho o reino dos céus e afugentado parentes que lhe farejavam o ouro, desiludidos com a perda da futura herança. Só não se fica a saber, neste belo «conto bárbaro» de João de Araújo Correia, o que terá sucedido à outra dúzia de enjeitados pelo avarento.

No Natal de Miguel Torga, avulta «um pobre já acostumado a quantas tropelias a sorte quer»: o velho Garrinchas, que quer ir «consoar à manjedoira nativa». Mas já lhe pesam os 75 anos e de nada lhe vale atravessar a serra «a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar». Por isso fica-se pelo adro da ermida da Senhora dos Prazeres. Como precisa de fogueira, vai roubar papel à sacristia e escavaca «o andor da procissão arrumado a um canto», para fazer lenha. Quando «a madeira seca do palanquim ardia que regalava» e ele se aprestava a cear um bom naco de presunto, «a alma deu-lhe um rebate». Foi perguntar à Santa se era servida, esta «pareceu sorrir-lhe», ele tirou a imagem do altar e trouxe-a para junto da fogueira. E assim consoaram os três: a Senhora dos Prazeres a fazer de quem era; o pequeno ao colo dela, «a mesma coisa»; e «o velho Garrinchas», reconhecendo-se «embora indigno», a fazer de São José.

Mais insólito é o conto de Alexandre O’Neill «com vista ao próximo Natal». São Exercícios de Auto-Apoucamento praticados por Valério, o Lèrinho da sua Quinhas, que até se enfia por «uma perna de calça sustentando-se em pé, sem, aparentemente, homem lá dentro». Lèrinho prepara assim uma surpresa ao filho, o Necas, auto-apoucando-se na «amurada do sapato» de Natal. Mas dá para o torto. Com um «órfão vivo» horrorizado a soluçar no regaço da mãe: «Sa… Sa… Saiu-me o… o… o pai no sa… sa… sapato!». E a Quinhas a prometer-lhe que «o pai voltaria a crescer, a crescer»… Bom Natal!

«DN» - 22 Dez 06

CLAUSEWITZ NO VIETNAME


AINDA HOJE, passadas mais de três décadas sobre a derrota que os EUA sofreram no Vietname, os generais e estrategistas militares norte-americanos se recusam a admiti-lo. Mas, o certo é que um pequeno professor de História, intelectual e militante político, autodidacta da guerra e conhecedor profundo das campanhas militares de Napoleão - o general vietnamita Vo Nguyen Giap - se tornou, por actos e vitórias, num dos maiores cabos-de-guerra, não apenas do sangrento século XX, mas também da História.

Foi Giap que desfez o mito da «inultrapassável potência das tropas americanas», desmentindo a crença segundo a qual uma força militar poderosíssima, com armamento sofisticado e ultramoderno, só poderia conduzir à vitória. Giap possuía as características que Carl von Clauzewitz atribui ao génio militar: a capacidade de transcender as regras do momento através da inovação e a importância atribuída às forças morais - a coragem, a resolução, a audácia, a perseverança - ao incutir nas suas tropas, nos seus guerrilheiros e na população em geral, uma fé inquebrantável na causa pela qual combatiam.

Na notável biografia intitulada Victory at Any Cost - The Genius of Viet Nam’s General Vo Nguyen Giap, publicada há dez anos pelo historiador norte-americano Cecil B. Currey, um dos maiores especialistas da história militar contemporânea, fica provado com toda a evidência que não foi por acaso que as forças combatentes criadas a partir do zero, preparadas e dirigidas por Giap durante 35 anos (1940-1975): ajudaram a varrer as forças japonesas da Indochina (1945); venceram as tropas francesas, ao fim de oito anos de combates, na decisiva batalha de Dien Bien Phu (1954); e derrotaram meio milhão de soldados norte-americanos, bem como a sofisticada parafernália de bombardeiros B-52 e de Rolling Thunder, sentando os EUA à mesa das negociações, depois da ofensiva do Tet (1968), e impondo-lhes a retirada, no final das negociações de Paris (1973).

Giap não era apenas magistral em organização e logística, como admitem alguns generais norte-americanos. Era também magistral em táctica e estratégia, como sublinha Currey. Conhecia tão bem as forças inimigas como conhecia as suas próprias forças. Era capaz de aprender com os seus próprios erros e derrotas. Era hábil e flexível a combater e a vencer inimigos muito superiores e muito diversificados. Combatia de uma maneira defensiva até que um equilíbrio fosse atingido e depois enfrentava os seus inimigos com exércitos massivos capazes de os derrotar. Com sabedoria e perspicácia, concentrava os seus homens e o seu material sobre o centro de gravidade do inimigo. E vencia!

Noções cruciais de Clausewitz passaram do papel à prática, no Vietname, graças ao génio político e militar de Giap. «Clausewitz teria estado do seu lado», admite Cecil B. Currey. Agora que está na moda considerá-lo ultrapassado, basta reler os capítulos 6 (Extensão dos meios de defesa) e 26 (O povo em armas) do Livro VI (A Defensiva), da obra-prima que é Da Guerra, para perceber a actualidade de Carl von Clausewitz.

«DN» - 15 Dez 06
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CESARINY PORTÁTIL


O NOME. «O nome desfigura as coisas» - dizia Pascoaes. E o poeta achava que o dele não lhe caía bem. Provocava nele «uma contracção com os dentes». Considerava-o «uma imposição violenta / uma cutilada atroz porque atrozmente desleal». No poema A Antonin Artaud, questionava com ironia «semelhante feixe de estruturas»: «Como assim Mário como assim Cesariny como assim / ó meu deus de Vasconcelos?».

A morte. Não se sabe se foi «uma morte loura / simpática / acolhedora», se «uma morte boa / a uma boa hora», se «uma morte naniôra», como no coro dos maus oficiais de serviço na corte de epaminondas, imperador. Se «já nada temos a fazer sobre a Terra esperemos de / olhos fechados a passagem do vento». Passou a morte «por um domingo extenso e plácido», como num dos versos do Manual de Prestidigitação.

O funeral. Não o enterro. Porque não se enterra um corpo num gavetão. Foi sob uma luz cinzenta e a água da chuva. No cemitério ó meu deus dos Prazeres! «Lá passam as gabardines a caminho do Inverno / este é o melhor tempo da minha vida / o melhor o mais belo o mais lúcido o mais da / minha vida». O que a morte escolheu.

As gabardines. Eram poucas. O poeta, como disse sua irmã Henriette, não tinha «vaidade nenhuma», era «do mais modesto que pode haver». Insusceptível, por isso, de atrair pomposos representantes dos poderes fácticos. Além das gabardines, estava só um gato preto. Era tão doce e tão manso, que se deixou afagar por uma rapariga loura, dona de um exemplar genuíno, o número 81, de A Cidade queimada. «Está pois tudo certo, ó ‘Deus dos cemitérios pequenos’?». A mansuetude do gato diz-lhe que sim.

A eternidade. Não confundir com imortalidade. «Como é que o animal que fuma pode crer na imortalidade?» - perguntava Pascoaes. Mas a eternidade, se existe, deve ser como no poema podendo servir de posfácio: um lugar em que «há praças onde esculpir um lírio / zonas subtis de propagação do azul / gestos sem dono / barcos sob as flores / uma canção para ouvir-te chegar». Tal como no fim do «estranho poema» Pena Capital - «o último de nome religioso escrito pelo Autor» - «o Poeta regressa ao seu atelier nos astros, que a sua governanta encheu de flores». Já lá está «exorcismando».

O azul. Propaga-se, quer na pintura do poeta, quer na poesia do pintor. O Azul é mesmo convidado a ir com o Poeta e o António para «as praias da alma». «Convidemos o Azul por uma questão de princípio». E, quando «António morre», «o Azul, o Poeta, o Desmaiado e a Morte, descem em lentidão pelo ar abaixo». Pascoaes, mágico e sábio da montanha, dizia que «o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz».

Azul, livre e portátil. Assim é a poesia de Cesariny. Cabe toda na boîte-en-valise de Marcel Duchamp, «sem dúvida a tentativa mais genial de exaltar o portátil em arte» - como escreve Enrique Vila-Matas. Espírito inovador, vontade constante de transgressão, sexualidade extrema, nomadismo infatigável, ausência de grandes propósitos. Claridade afinal tão azul como a que emana da «máquina risonha» de Walter Benjamin.

«DN» - 8 Dez 06
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